Empréstimo com juros menores pode sair mais caro? Compare pelo CET, não só pela taxa

A taxa de juros anunciada não representa necessariamente tudo o que será pago: o Custo Efetivo Total reúne juros, impostos, tarifas, seguros e outras despesas e permite comparar propostas em bases mais próximas do custo real.

Publicado em 24/09/2026 por Rodrigo Duarte.

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Encontrar um empréstimo com juros menores parece, à primeira vista, suficiente para escolher a opção mais barata. Na prática, porém, duas propostas com o mesmo valor e prazo podem ter custos diferentes porque a prestação não depende apenas da taxa de juros divulgada pelo banco.

Empréstimo com juros menores pode sair mais caro? Compare pelo CET, não só pela taxa
Créditos: I.A.

Tarifas, Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), seguros e outras despesas vinculadas à contratação podem aumentar o preço final. É justamente para consolidar esses valores que existe o Custo Efetivo Total (CET), indicador que as instituições financeiras precisam apresentar ao consumidor nas operações abrangidas pela regulamentação.

Por isso, comparar apenas uma oferta de 2% ao mês com outra de 2,2% ao mês pode levar a uma decisão equivocada. A primeira pode incluir custos adicionais suficientes para terminar mais cara. Antes de contratar, o consumidor deve observar o CET das propostas e, além dele, conferir quanto efetivamente receberá e qual será o valor total desembolsado até a última parcela.

CET reúne despesas que não aparecem na taxa de juros

O Banco Central define o Custo Efetivo Total como uma taxa que representa, de forma consolidada, os encargos e as despesas relacionados à operação de crédito. Seu cálculo considera os valores que efetivamente entram e saem da operação ao longo do contrato.

Além dos juros, entram no cálculo as amortizações, tarifas, tributos, seguros e outras despesas vinculadas ao empréstimo ou financiamento. Também podem ser considerados pagamentos de serviços de terceiros contratados pela instituição e colocados sob responsabilidade do tomador, mesmo quando essas despesas não são simplesmente acrescentadas ao valor principal liberado ao cliente.

Essa abrangência explica por que o CET pode ficar acima da taxa de juros anunciada. Os juros remuneram o dinheiro emprestado, enquanto o custo efetivo procura mostrar o impacto conjunto de todos os valores que fazem parte da operação.

O CET é apresentado como uma taxa percentual anual. Isso facilita a comparação entre propostas estruturadas de maneiras diferentes, desde que o consumidor esteja analisando operações equivalentes em valor e prazo. Ainda assim, vale olhar também os valores em reais, porque uma porcentagem isolada não mostra de maneira tão intuitiva quanto sairá do orçamento até a quitação.

Juros menores podem perder vantagem quando existem outros custos

Imagine duas propostas hipotéticas para o mesmo valor e prazo. O banco A oferece juros menores, mas inclui tarifa e seguro vinculados à operação. O banco B apresenta juros um pouco mais altos, mas possui menos despesas adicionais. Dependendo dos valores envolvidos, o CET do banco B pode terminar abaixo do oferecido pelo banco A.

Esse exemplo ajuda a mostrar por que anúncios baseados apenas na taxa de juros devem ser avaliados com cautela. Uma diferença aparentemente favorável pode ser anulada por outros componentes do contrato.

O próprio material de educação financeira do Banco Central utiliza essa lógica para explicar o CET: uma instituição pode anunciar juros menores e, ainda assim, apresentar custo total superior porque cobra encargos adicionais maiores.

Isso não significa que toda tarifa ou seguro transforme automaticamente um empréstimo em uma opção ruim. O que interessa é avaliar o conjunto. Uma proposta deve ser comparada com outra considerando o valor efetivamente liberado, a quantidade e o valor das parcelas, o prazo, as despesas e o custo efetivo da operação.

Também é importante verificar se algum serviço apresentado junto com o crédito é realmente obrigatório para aquela contratação ou se existe uma oferta adicional sendo feita ao consumidor. O contrato deve permitir identificar os componentes considerados no custo.

Banco precisa informar o CET antes da contratação

O CET não é uma informação que deveria aparecer somente depois que o cliente já assumiu a dívida. A Resolução CMN nº 4.881 determina sua apuração e informação na oferta ou contratação das operações abrangidas pela norma.

O Código de Defesa do Consumidor também exige informação prévia e adequada sobre o Custo Efetivo Total e sobre os elementos que o compõem. Além da taxa, devem ser apresentados dados como a taxa efetiva mensal de juros, o montante das prestações e outras informações previstas para a oferta de crédito.

No contrato, o consumidor deve encontrar as taxas efetivas mensal e anual, tributos, tarifas, outras despesas e o próprio CET. Dessa maneira, não é necessário tentar calcular sozinho quanto cada cobrança acrescenta à taxa anunciada para conseguir comparar propostas.

A regulamentação do Banco Central prevê ainda um demonstrativo de cálculo em que os componentes podem ser apresentados em reais e como percentual do total devido. Isso ajuda a enxergar quanto do financiamento corresponde ao dinheiro efetivamente recebido e quanto está relacionado a despesas vinculadas à concessão.

Se a instituição apresenta apenas a parcela mensal ou destaca os juros sem deixar claro o CET, o consumidor deve solicitar essa informação antes de aceitar a contratação.

Parcela menor também não garante empréstimo mais barato

Outro erro comum é escolher uma proposta apenas porque a prestação cabe melhor no orçamento. Uma parcela menor pode ser resultado de juros mais baixos, mas também pode aparecer simplesmente porque a dívida foi distribuída por um prazo maior.

Um empréstimo pago em 48 meses, por exemplo, pode exigir menos dinheiro a cada mês do que uma operação semelhante em 24 meses. Em contrapartida, o cliente permanecerá mais tempo pagando juros e pode terminar desembolsando um valor total maior.

Por isso, o CET deve ser usado em conjunto com outras informações. Para comparar propostas, é importante que valor solicitado e prazo sejam semelhantes. Depois disso, o consumidor pode observar o CET e conferir quanto receberá efetivamente, quanto custará cada parcela e qual será a soma dos pagamentos até o fim.

Esse cuidado também é útil em refinanciamentos e renegociações. Reduzir a prestação de uma dívida existente pode aliviar o orçamento imediatamente, mas alongar demais o prazo pode aumentar o custo total. Uma boa comparação não termina no valor que cabe no mês seguinte.

Comparação deve considerar a mesma dívida nas duas propostas

Para que o CET seja realmente útil, a comparação precisa partir de operações semelhantes. Colocar lado a lado um empréstimo de R$ 10 mil em 12 meses e outro do mesmo valor em 48 meses, por exemplo, mistura prazo e estrutura financeira diferentes.

O ideal é pedir propostas para o mesmo valor e prazo e verificar o CET oferecido por cada instituição. Depois, vale comparar a soma total das parcelas e as despesas descritas no contrato. Quando uma operação possui seguro, tarifa ou outro custo relevante, o consumidor consegue identificar de onde vem a diferença.

Também não é necessário limitar a pesquisa ao banco onde já existe conta. As instituições definem suas condições de acordo com perfil do cliente, modalidade e política de crédito, e o próprio Banco Central informa que as taxas praticadas podem variar de pessoa para pessoa.

A menor taxa de juros continua sendo uma informação relevante, mas não deve ser usada sozinha. O CET existe justamente para evitar que uma proposta aparentemente mais barata esconda outros custos. Antes de contratar, comparar esse indicador, o prazo e o total a pagar oferece uma visão muito mais próxima do impacto que o empréstimo terá no orçamento.

ESCRITO POR: Rodrigo Duarte - Jornalista formado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), com especialização em Marketing Digital.